Da humildade do terapeuta

Fevereiro 10, 2018 jotamdacunha 0 Comments

Um dos focos fundamentais do curso que ensino há já 5 anos (depois de 18 anos de prática clínica) é a Ética do terapeuta. Sempre tenho insistido na perspectiva de que nunca nos devemos querer fazer passar pelo que não somos (ou não temos) e que a consciência total e permanente pela regra de ouro da prática terapêutica (o respeito integral pelo livre arbítrio) é a única forma de não corrermos o risco de ultrapassar a linha que separa a ajuda da intromissão na vida do outro.

Compreendo a necessidade do Ego Altruísta ou do Ego Espiritual em sentir-se superior, mais sábio ou mais capaz de guiar o outro na sua caminhada. Compreendo a necessidade de um desses mesmos egos de se fazerem passar ou sentir como especiais ou únicos; compreendo a sua necessidade de ter um séquito para a sua própria validação, que não conseguem dar-se a eles mesmos (dadas as limitações inerentes à condição egóica).

O que não compreendo é a ausência total de auto-reflexão e de auto-conhecimento. O que não compreendo é como o Ser, do qual faz parte esse ego, não desenvolver uma postura de humildade relativamente a si mesmo e deixar-se embarcar pelas armadilhas egóicas, que tanto tem necessidade de apontar e limar nos outros.

Tenho dito e digo muitas vezes que qualquer terapeuta, em qualquer área e não apenas na da espiritualidade, deve e tem de encarar a sua prática profissional como o meio que escolheu para fazer as maiores aprendizagens sobre si mesmo. E é duro!

É duro fazer um atendimento e sentir que o que está a ser abordado também lhe toca a si. É duro olhar para esse espelho, que é o outro, e ter a humildade de, depois, trabalhar consigo mesmo. É, certamente, mais fácil ao ego querer achar que já tem ultrapassadas essas questões e que já é muito sábio.

Adivinha!? Tudo quanto encontras no teu caminho enquanto terapeuta é para ti. Cada pessoa que se senta à tua frente e te vem pedir ajuda é um “mestre” na tua vida e está ali também para te ajudar nas linhas orientadoras da tua própria vida.

Não és um sábio superior que ajuda os outros e já nada tem para trabalhar e conhecer em si. Se tens a certeza de que já te conheces a ti mesmo, pensa de novo. Questiona de novo essa certeza, porque estás a ser enganado.

Até o filósofo Sócrates teve a humildade de proferir a expressão “só sei que nada sei”. E tu? Que pensas?

Se tens a necessidade de usar títulos académicos, é ego. Se tens a necessidade de saber “como a pessoa se sente” ou se a terapia teve “bons resultados”, é ego.

O processo terapêutico termina no final de cada consulta e aquilo que cada paciente faz com a informação que recebe é a sua própria escolha. Habitua-te a respeitar isso, a não achar que tens a solução para os problemas do outro, a não criticar os teus pacientes quando eles não fazem aquilo que tu lhes “mandas” fazer.

Escolhe desistir da necessidade de dizer que és “mestre”, terapeuta ou doutor (dr.). Escolhe desistir da necessidade de avaliar a tua qualidade profissional pelo sucesso das tuas terapias ou pelo preenchimento da tua agenda.

Escolhe, antes, com cada paciente, ajudares-te a ti mesmo. Depois de cada sessão, tem a humildade de reflectir ou meditar sobre o que podes aprender com aquela pessoa e como as ideias que partilhaste com ele ou ela te podem ajudar A TI a ser melhor. Melhor que quem? Que tu próprio.

Desiste na concorrência e da competição. São armadilhas do ego. Desiste de olhar para outros terapeutas e de te comparares com eles (não importa se te achas melhor ou pior, a competição está lá na mesma).

Se queres usar expressões como “aconselhamento” ou “psicoterapia” tem a certeza que tens a formação INTERNA para isso.

Fazer aconselhamento não é dar conselhos. Fazer psicoterapia não é o resultado de uma formacaozinha de meia dúzia de horas…

A prática terapêutica em particular, ou qualquer prática clínica no geral, é um processo contínuo de crescimento pessoal, é uma tarefa para sempre inacabada. O conhecimento de ti mesmo nunca se esgota, porque és filho ou filha do Absoluto. E a tarefa de conhecer o Absoluto é uma tarefa para a Eternidade e por isso foste criado/a por esse Absoluto para a Vida Eterna.

Leave a Reply:

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *