“Amai-vos uns aos outros”

Dezembro 5, 2017 jotamdacunha 0 Comments

Acreditar que pode haver alguém, fora de nós, que nos “esgote” ou “prejudique” é assumir uma postura egóica de superioridade relativamente ao outro. Mais importante é perceber quais são as nossas fragilidades que permitem essa transferência de energia que nos esgota, quais as nossas intenções e expectativas quando damos (em especial, no contexto profissional, não damos. Vendemos! E se não sentimos receber o suficiente pelo trabalho, então o que há a fazer é aumentar o valor do nosso trabalho) e o que precisamos transformar em nós.

Esta moda de xingar e maldizer os outros sem sermos capazes de olhar para nós mesmos é a maior e melhor forma de fazermos passar a mensagem de vitimização. É a proliferação da mensagem do Ego, para não dizer que é a mensagem do próprio anti-Cristo.

Quando o mestre Jesus esteve por cá em forma corpórea, foi claro na mensagem: “Amai-vos uns aos outros (bem) como a vós mesmos.”

Esta mensagem não é para sermos boas pessoas nem para acumularmos créditos no Céu. O Céu é nosso, pertence-nos por direito de nascimento (do espírito). Somos criaturas criadas por um criador que é só Amor e Dádiva. E Ele não nos castiga se não seguirmos a Sua Palavra. A “receita” deixada por Ele é uma receita para a nossa salvação individual e nada tem a ver com os outros. E se escolhermos não a seguir, Ele respeita-nos, dá-nos oportunidade a seguir a oportunidade para nos redimirmos, até que, por escolha própria e consciente, aceitamos o Seu Amor ou nos afastamos deliberadamente Dele, para sempre. A escolha é nossa!

Somos também criaturas experienciando uma vivência humana, relativa, parcial, porque é necessário aprendermos o Amor a partir do Relativo. O caminho é em direcção ao Absoluto. Mas nunca poderemos conhecer o Absoluto porque somos suas criaturas e criadores com Ele; não somos criadores como Ele.

Quantas vezes também nós usamos e transferimos a energia dos outros para nós mesmos, quando nos sentimos perdidos, quando pedimos ajuda, quando nos mostram soluções e nós enunciamos obstáculos, quando julgamos os outros pela sua resposta (que vemos como contrária ou não suficientemente de acordo com as expectativas que criámos sobre essa mesma resposta).

O que procuramos? A nossa “falha humana” ou o nosso “pecado original” é termos esquecido quem somos e, por isso, procuramos nos outros o reconhecimento dessa identidade. Precisamos que sejam os outros a olhar para nós e a reconhecer a nossa santidade, porque somos incapazes de a ver e aceitar em nós. Porque as expectativas egóicas falam sempre mais alto do que a capacidade de aceitarmos o outro tal como é.

Essa é a aprendizagem e é a mais difícil para cada um de nós: porque falhamos em reconhecer-nos, falhamos em reconhecer o outro. E, assim, torna-se mais fácil e mais confortável colocar o ónus da responsabilidade no outro.

Amar-nos uns aos outros é difícil, diria mesmo que é bem lixado. Em especial amar aqueles que nos magoam. Mas amar quem já nos ama não nos traz aprendizagem. Só vivência desse Amor que partilhamos, e que é tão necessária como o Amor que precisamos aprender a construir sobre aqueles que nos odeiam.

Amar implica aceitar o outro sem permitirmos ser usados ou humilhados. Amar significa “dar a outra face” ao outro, quando ele nos fere, ou seja, responder-lhe com ainda mais Amor. Amar implica reconhecer no outro as nossas características mais detestáveis e, depois desse reconhecimento, o trabalho de reflexão individual que é o único caminho que nos pode levar à transformação. É fácil? Não. Nada. Mas é o único caminho.

De nada vale acendermos velas e incensos, praticarmos ioga ou irmos à missa todos os dias e comungar, se ainda não compreendemos esta mensagem. Aliás, a razão pela qual precisamos das velas, dos incensos, do ioga ou da missa é exactamente essa: ainda não aprendemos e precisamos de aprender, de ouvir vezes sem conta a mesma lenga-lenga para que os nossos corações duros, fruto das nossas experiências passadas mal interpretadas, possam efectivamente transformar-se.

Li pelo facebook a seguinte frase: “O que não nos edifica, nos destrói”. Cheio de comentários de apoio e concordância, olhei para ela e reflecti: ainda estamos tão longe do que precisamos de aprender. A frase original é “O que não nos mata, torna-nos mais fortes” e o seu inverso não é verdadeiro.

Não veja nesta minha reflexão nenhum tipo de presunção de superioridade. Se ainda estou vivo e dentro deste corpo, significa que também ainda não aprendi. Mas cada dia peço, na minha forma de comunicação com o Divino, que Ele me mostre o caminho para aprender a Amar.

Depois, cada pessoa no meu caminho é uma benção, cada palavra é um ensinamento. As mais duras e mais injustas são os ensinamentos maiores. isso eu sei, mas agora estou a aprender a vê-los dessa forma.

A frase não podia estar mais longe da mensagem de Amor. É verdadeiramente anti-Cristo!

Que este Advento seja o solo propício a trabalharmos em cada um de nós a aceitação e o Amor trazidos por Ele, Deus feito homem, e pelo sacrifício que fez por todos nós. Ao entregar-se à morte, amando todos os que lhe batiam e crucificaram e dando o testemunho desse Amor, perdoando os que o traíram (e não foi só um!) e ressuscitando, cumprindo a Sua promessa de Salvação, não deveríamos nem por um segundo duvidar da maior prioridade na nossa vida: aprender o que é o Amor, com a certeza da Salvação Eterna garantida, a não ser que escolhamos individualmente afastar-nos do Caminho que Ele nos ensinou.

Que caminho escolhes?

Feliz e próspero Advento!

 

 

 

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